Arquivos da categoria: A Pedra do Gênesis – 1988

Areia da Ampulheta

Eu sou a areia da ampulheta
O lado mais leve da balança
O ignorante cultivado
O cão raivoso inconsciente
O boi diário servido em pratos
O pivete encurralado

Eu sou a areia da ampulheta
O vagabundo conformado
O que não sabe qual o lado
Espreita o pesar das pirâmides
Cachaceiro mal amado
O triste-alegre adestrado

Eu sou a areia da ampulheta
O que ignora a existência
De que existem mais estados
Sem ideia que é redondo
O planeta onde vegeta
Eu sou a areia da ampulheta

Eu sou a areia
Eu sou a areia da ampulheta
Mas o que carrega a sua bandeira
De todo o lugar o mais desonrado
Nascido no lugar errado
Eu sou, eu sou você

Composição: Raul Seixas

Senhora Dona Persona (Pesadelo Mitológico nº 3)

Eu sei que você já gosta
De comer nossos bebês
Os mais tenros, mais gostosos
Com volúpia, embriaguez

Senhora dona Persona
Senhora dona Persona
Senhora dona Persona
Não tire mais um filho de mim

Eu queria ver sua cara
Não encontrei nenhuma cara
Mas você ainda me paga
Qualé, tá pensando que é Deus?

Senhora dona Persona
Senhora dona Persona
Senhora dona Persona
Não tire mais um filho de mim

Eu tô fazendo o meu caminho
E não peço que me sigam
Cada um faz o que pode
Os homens passam, as músicas ficam

Composição: Raul Seixas

Lua Bonita

Lua bonita,
Se tu não fosses casada
Eu preparava uma escada
Pra ir no céu te buscar
Se tu colasse teu frio com meu calor
Eu pedia ao nosso senhor
Pra contigo me casar
Lua bonita
Me faz aborrecimento
Ver São Jorge no jumento
Pisando no teu clarão
Pra que cassaste com um homem tão sisudo
Que come dorme faz tudo, dentro do seu coração?
Lua Bonita, Meu São Jorge é teu senhor,
E é por isso que ele “véve” pisando teu esplendor
Lua Bonita se tu ouvisses meus conselhos
Vai ouvir pois sou alheio,
Quem te fala é meu amor
Deixa São Jorge no seu jubaio amuntado
E vem cá para o meu lado
Pra gente viver sem dor.

Composição: Zé Martins / Zé do Norte

I Don’t Really Need You Anymore

I don’t really need you anymore
I’ve told you that some time before
You never got to understand,
And not even care to be my friend

I don’t really need you anymore

I can do better by myself
When I was “low” you’d put me down, so down
You’ve is soon right in my way
I never had the guts to say

I don’t really need you anymore

You got your chance to go right now
Before I knock you on the ground
Now I’m so clear and I can see
You’ve never been the girl, for me, man

I’d work at day and work at night
Trying hard to make you feel all right
You never shower cooperation
Too cool to show consideration, now

I don’t really need you anymore

Composição: Raul Seixas e C. Roberto

Não Quero Mais Andar Na Contra-mão

(Qucul! Qucul!)
Hoje uma amiga
Da Colômbia voltou
Riu de mim porque
Eu não “intindi”
Do que ela sacou
Aquele fumo rolou
Dizendo que tão bom
Eu nunca vi…

Eu disse:
Não! Não! Não! Não!
Eu já parei de fumar
Cansei de acordar pelo chão
Muito obrigado!
Eu já estou calejado
Não quero mais andar na contra-mão…

Da Bolívia
Uma outra amiga chegou
Riu de mim porque
Eu não “intindi”
Quis me empurrar
Um saco daquele pó
Dizendo que tão puro
Eu nunca vi…

Eu disse:
Não! Não! Não! Não!
Eu já parei de “hunfz”
Cansei de acordar pelo chão
Muito obrigado!
Eu já estou calejado
Não quero mais andar na contra-mão…

Titia que morava
Na Argentina voltou
Riu de mim porque
Eu não “intindi”
Me trouxe uma caixa
De perfume hehei
Daquele que não tem
Mais por aqui…

Eu disse:
Não! Não! Não! Não!
Não brinco mais carnaval
Cansei de desmaiar no salão
Muito obrigado!
Eu já andei perfumado
Não quero mais andar na contra-mão…(2x)

Composição: David P. Jackson / Hoyt Axton / Raul Seixas

Cavalos Calados

O termômetro registrou,
a enfermeira confirmou,
a minha morte aparente, a minha sorte, minha camisa rasgada no
peito, escorrendo óleo diesel.
O relógio alarmou,
a TV anunciou,
a minha morte, preta e branca, a sua sorte, e o seu durex já não
cola, já não basta o tapa-olho, eu tenho mais um por entre as pernas
cabeludas, olhos e antenas sobresalentes.
O meu pulso não pulsou,
o aparelho aceitou,
a minha morte aparente, a sua sorte, minha garganta sem voz.
acordo semi-lúcido,
entre a morte e a morte,
relembrando onde perdi a minha língua atrevida
pelas mortes,
pelas vidas,
pelas avenidas,
pelas Ave Marias cantadas em coro no meu violão.
Pelas ruas sem chão!
Meu corpo tem dois mil e tantos cavalos calados…

Composição: Raul seixas

Fazendo o Que o Diabo Gosta

Casamos num motel
Bem longe do altar
Lua de mercúrio, fogo e mel
Não fui o seu primeiro
Você já tinha estrada
Dois filhos, um travesseiro e a empregada
Um anjo embriagado num disco voador
Jurou que o nosso amor era pecado
Mas a história mostra
Que a gente agrada a deus
Fazendo o que o diabo gosta
Casamos por tesão, tesão, tesão, tesão
Bateu o terror não tem mais solução
Te entrego os meus medos, meus erros, meus segredos,
Divido minhas guimbas com você
Um anjo embriagado num disco voador
Jurou que o nosso amor era pecado
Mas a história mostra
Que a gente agrada a deus
Fazendo o que o diabo gosta
Quebramos nossas caras
Pra se lamber depois
Amor é ódio, é o certo pra nós dois
Casamos num motel
Bem longe do altar
Lua de mercúrio, fogo e mel
Fogo e mel

Composição: Raul Seixas e Lenna Coutinho