Quando Eu Morri

Quando eu morri em dezembro
De mil novecentos e setenta e dois
Eu Esperava ressuscitar e juntar os pedaços
Da minha cabeça um tempo depois

Um psiquiatra disse
Que eu forçasse a barra
E me esforçasse pra voltar à vida
E eu parei de tomar ácido licérgico
E fiquei quieto
Lambendo minha própria ferida

Sem saber se era crime ou castigo
E se havia algum cordão no meu umbigo
Pra de novo arrebentar
Pois eu fui puxado à ferro
Arrancado do útero materno
E apanhei pra poder chorar

Quando eu morri suando frio
Vi Jimmy Hendrix tocando nuvens distorcidas
Eu nem consegui falar

E depois por um momento
O céu virou um fragmento do inferno
Em que eu tive de entrar

Eu sentia tanto medo, só queria dormir cedo
Pra noite passar depressa
E não poder me agarrar

Noites de garras de aço
Me cortavam em mil pedaços
E no outro dia eu tinha de me remendar

E se a vida pede a morte
Talvez seja muita sorte eu ainda estar aqui
E a cada beijo do desejo
Eu me entorpeço e me esqueço
De tudo que eu ainda não entendi

Raul Seixas

Pastor João E a Igreja Invisivel

Eu não sei se o céu ou o inferno
Qual dos dois você vai ter que encarar
E foi pra não lhe deixar no horror
Que eu vim para lhe acalmar
Se o pecado anda sempre ao seu lado
Se o demonio vive a lhe tentar
Chegou a luz no fim do seu tunel, minha filha
O meu cajado vai lhe purificar

Pois eu transformo água em vinho,
Chão em céu, pau em pedra, cuspe em mel
Pra mim não exixte impossivel
Pastor João e a igreja invisivel 2x

Pois eu transformo agua em vinho,
Chão em céu, pau em pedra, cuspe em mel
Pra mim não exixte impossivel
Pastor João e a igreja invisivel 2x

Para os pobres e deseperados
E todas as almas sem lar
Vendo barato a minha nova agua benta
Três prestações, qualquer pode pagar
O sucesso da minha existencia
Esta ligado ao exercicio da fé
Pois se ele remove montanhas
Também tras grana e um monte de mulher.

Pois eu transformo agua em vinho,
Chão em céu, pau em pedra, cuspe em mel
Pra mim não exixte impossivel
Pastor João e a igreja invisivel 2x

Raul Seixas

Nuit

Eu, eu ando de passo leve pra não acordar o dia
Sou da noite a companheira mais fiel qu’ela queria!
Amo a guerra, adoro o fogo
Elemento natural do jogo, senhores:
Jamais me revelarei
Jamais me revelarei!
E quão longa é a noite
A noite eterna do tempo
Se comparado ao curto sonho da vida
Chega enfeitando de azul
A grande amante dos homens
Guardando do sol, seu beijo em comum
Seja bom ou o que não presta
Acendo as luzes para nossa festa, senhores:
Eu sou o mistério do sol!
Eu sou o mistério do sol!
Mas é com o sol que eu divido toda a minha
energia
Eu sou a noite do tempo
Ele é o dia da vida
Ele é a luz que não morre
Quando chego e anoiteço
O sol dos dois horizontes
A mais perfeita harmonia

Kika Seixas – Raul Seixas

Carpinteiro Do Universo

carpinteiro do universo inteiro eu sou
carpinteiro do universo inteiro eu sou

o meu egoismo é tão egoista
que o auge do meu egoísmo é querer ajudar…

mas não sei por que nascí pra querer ajudar a querer consertar o que não pode se-er,

não sei pois nascí para isso e aquilo e o enguiço de tanto quere-er,

carpinteiro do universo inteiro eu sou
carpinteiro do universo inteiro eu sou

estou sempre, pensando em aparar o cabelo de alguem,
e sempre tentando mudaar a direção do trem,
a noite a luz do meu quarto eu não quero apagaar,
pra que você não tropece na escada quando chegar,

carpinteiro do universo inteiro eu sou
carpinteiro do universo inteiro eu sou assim

carpinteiro do universo inteiro eu sou
no final, carpinteeeeiro de mimmm.

Raul Seixas

Cãimbra No Pé

Saiba esperto ou burro
Você vai morrer aqui
Isso é um perigo eu sei
Mas esse é um país perigoso

Se você vacilar neguinho chupa
Sangue do pescoço
E lá se vão mais dois cc
Essa rampa escorrega
“but don’t worry baby”
Nós estamos aqui

Entre igrejas e cassinos e discursos tão

Cretinos mesmo assim
São todos gente finíssima
Mas com eles ou sem nada esse é
O nosso país
Saiba esperto ou burro
Você vai morrer aqui
Isso é um perigo eu sei
Mas esse é um país perigoso
Se você vacilar neguinho chupa
Sangue do pescoço
(eu queria poder saber o que dizer
Pra lhe consolar
Mas meu sapato tá apertado e
Pisaram no meu calo

Sai pra lá
Não quero ser treinado como um
Doberman do sistema
Não quero ser treinado com um
Doberman desse esquema
Nós gritamos um pouco,
Quebramos algumas vidraças
Mas tudo bem…

Raul / marcelo Nova

Best Seller

O Best Seller do momento
É um livro agourento
Que ninguém entende mas
Todo mundo quer ler
Ler pra ter cultura e como acabaram
com a censura
A mídia agora é o nosso Aiatolá
Ah, mas não se importe não
No final o bandido casa
com o mocinho
E o Best Seller vai pra
milésima edição
Ah, mas não se importe não
No final o bandido casa
com o mocinho
E o Best Seller vai pra
milésima edição
O presidente conversa com Sting
E é você quem não distingue
Quais são os índios que vão
tomar no Xingu
Ai meu Deus que agonia
Como toda essa pontaria
A pomba escapa (e quem se ferra)
E quem se ferra é o urubu
Ah, mas não se importe não
No final o bandido casa
com o mocinho
E o Best Seller vai pra
milésima edição
Ah, mas não se importe não
No final o bandido casa
com o mocinho
E o Best Seller vai pra
milésima edição
Se já não existe inteligência
Então vamos bater continência pra
esse indício
De resquício militar
(um, dois, três, quatro)
E como é tudo a mesma merda,
Antes que chegue a vida eterna
Eu vou pedir asilo ao Paraguai
Ah, mas não se importe não
No final o bandido casa
com o mocinho
E o Best Seller vai pra
milésima edição…

Marcelo Nova / Raul Seixas

Banquete De Lixo

Às 3 horas da manhã na cidade tão estranha
Um palhaço teve a manha de um banquete apresentar
E era um latão de lixo transbordando em Nova Iorque catchup e caviar

E eu dormindo embriagado, um par de coxas do meu lado
E eu sem saber se devia ou não tocar
Se era estrangeira, mãe, esposa ou outra besteira
Que eu inventei de aprontar

O hoje é apenas um furo no futuro
Por onde o passado começa a jorrar
E eu aqui isolado onde nada é perdoado
Vi o fim chamando o princípio pra poderem se encontrar

Fui levado na marra, pois enfermeiro quando agarra
É que nem ordem de prisão
A ambulância me esperava, e aí o que rolava, internamento einjeção

E lá em Serra Pelada, ouro no meio do nada
Dor de barriga desgraçada resolveu me atacar
O show estava começando e eu no escuro me apertando
E autografando sem parar

REFRÃO

Muitas mulheres eu amei e com tantas me casei
Mas agora é Raul Seixas que Raul vai encarar
Nem todo bem que conquistei, nem todo mal que eu causei
Me dão direito de poder lhe ensinar

Meu amigo Marceleza já me disse com certeza
Não sou nenhuma ficção
E é assim torto de verdade com amor e com maldade
Um abraço e até outra vez

Raul Seixas